domingo, 17 de maio de 2015

O teu all star azul combina com minha bota de cano alto

Oi. Desculpa estar te acordando no meio dessa madrugada abafada de março, ter pulado tua janela e bater no vidro adesivado, é que eu precisava te dizer que daqui há exatos 23 dias a gente vai se conhecer. Eu vou chegar em ti como quem não quer nada e quer tudo. Vou falar um "oi" toda envergonhada e vou pensar "finalmente te encontrei" e depois suspirar quando estiver voltando pra casa no fim da noite. Vou inventar motivos estapafúrdios pra te encontrar e conversar. Te dizer que eu gosto de música boa e que tenho sono com cinema mudo (na verdade, irás descobrir depois que pego no sono em qualquer cantinho). Vou limpar teus óculos imundos. Vais tentar me ensinar a tocar violão. Vou fazer lasanha e tu vais repetir. Vou te mostrar o Azul. Vou te dizer que a minha paixão é a literatura portuguesa e que Fernando é o meu Sebastião. Nem vou precisar dizer, afinal, já vais perceber que prefiro gatos a cachorros, doces a salgados, teu beijo a qualquer outro que já degustei. Vou te pedir pra cortar o cabelo umas cinquenta vezes ao mês. Vais fazer uma massa insossa e eu não vou repetir. Vou te dizer que te amo depois de um tempo bom. Vou te ensinar a ler do meu jeito. Vais desmaiar em cima de mim. Vou saber que te amo quando estivermos ouvindo música popular brasileira. Vais me fazer provar quindim e vou te odiar por isso, mas calma, não vou te bater (na verdade, deveria ter batido). Vou desmaiar em cima de ti. Vou pintar o teu nariz com aquarela. Vou te acordar no meio da madrugada. Vou te incomodar. Vou te pedir pra carregar minha mochila (mesmo que ela só tenha dois livros e o cartão do ônibus). E o melhor de tudo é que a Capital ainda é nosso lugar, onde a gente se conheceu e volta pra matar a saudade dos tempos da La Bodeguita. Vamos fazer uma música juntos sobre o primeiro poeta que falamos quando conversamos e da nossa Capital. Vamos andar nas noites congelantes de agosto, tu tremendo de frio segurando as minhas botas de cano alto e eu com o teu All Star azul e com teu casaco. Vamos ir no São Pedro e eu vou ter a certeza de que como Clarice, se eu acredito, os anjos existem: achei o meu.

"Porto Alegre sem você é um quintanar."

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Astrolábio

astrolábio.
era o que o professor havia escrito no quadro.
pensei cá comigo, o que significaria astrolábio.

algo com astros claro, mas teria relação com teus lábios? penso que como ainda não sei o que quero fazer da vida, faria astrolabismo, ou ciências astrolábicas.
dedicaria minha vida inteira a ciência que estuda os teus lábios e seria doutor, phd nisso, mesmo sem nunca os ter tocado. saberia definir todas as linhas da tua boca bem desenhada.
poderia falar horas sobre a maciez, que me lembra um algodão umedecido. sobre como fica escarlate quando tu passa aquele batom cuidadosamente no espelho. e como deve ficar ainda mais lindo, quando alguém te beija devassadamente. como eu queria te beijar loucamente.
passar meus dedos nas linhas de tua boca, pra sentir se aquilo é deveras real. se não estou sonhando, como muitas vezes já sonhei.
tentaria tecer mil hipóteses de o porquê quando nervosa, morde o lábio inferior com tanta força, que chega a sangrar, muitas vezes.
pensaria que tu como deusa astrolábica, ficaria impassível a qualquer tipo de mau hálito. falaria que de tão doces que são teus lábios, teriam gosto e aroma de framboesa fresca, sem mesmo não ter passado qualquer recurso labial, o famoso gloss que vocês mulheres vivem passando.
fico pensando que teus lábios jamais ficariam sequer secos no verão, pois são tantas outras bocas que te querem, que só com o pensamento de um beijo já lubrificam teus lábios.

''alguém de vocês sabe o que é astrolábio?'' permaneço-me calado. permaneço ainda sem saber o que é de fato astrolábio. permaneço sem saber bulhufas de história geral. permaneço sem teus lábios.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

No divã: Tarsila


- Oi, tudo bem, seu Otávio?

- Tudo sim, minha querida. Fica à vontade, o divã te espera.

Me sentei. Não contente, me deitei.

- Sabe, seu Otávio, eu não sei se cheguei a te falar dela...

- Da sua mãe ou da sua cachorra?

- Não, seu Otávio, não é nem a dona Liliane e nem a Lili.

- Então...?

- É dela, seu Otávio! Da Paula!

- Fale sobre ela.

- Ah, a Paula, seu Otávio... Se o senhor a conhecesse, se o senhor só a visse! A Paula é daquelas excêntricas, sabe seu Otávio? Ela sabe o que quer. O senhor acha que ela possa vir a me querer um dia, seu Otávio?

- Não conheço a Paula, minha querida, não posso responder por ela.

- Não seja por isso, seu Otávio! Vou te contar tudo sobre a Paula. A Paula tem 26 anos... Ou seria 25? Faz aniversário no outono, isso sei bem! Sabe como sei disso, seu Otávio? Foi no outono que a gente se conheceu. Tava esperando o ônibus e ela me aparece. Ah, seu Otávio, se o senhor visse! Ela até tinha tinta no cabelo!

- Ela tinha o quê, Tarsila?

- Tinha tinta no cabelo, seu Otávio! Não te falei que ela faz História da Arte? Fiquei sabendo depois que ela tinha tinta no cabelo, porque tinha acabado de pintar. Ah, seu Otávio, nunca vi alguém que pinte e conheça tão bem arte como ela! Ela é tão intensa, seu Otávio! Acho que por isso prefere Van Gogh a Gauguin. Ela é tal qual Van Gogh, vulnerável, mas intensa. Gauguin é tão arrogante, seu Otávio! A Paula que me disse, inclusive.

Seu Otávio agora não me olhava mais com aquele olhar tranquilo, como era de costume, mas com um olhar perplexo. Saberia ele sobre os negros de Gauguin, ou sobre as flores de Van Gogh, ou somente dos ensinamentos de Freud?

- Tarsila?

- Que foi, seu Otávio?

- Tu estavas falando sobre a Paula e se calou de repente.

- Ah é verdade... Então, seu Otávio, tu acha que ela possa vir a me querer?

- Desculpe, Tarsila, o horário da sua sessão já excedeu.

- Mas, seu Otávio... E a Paula?

- Ora, Tarsila, fale com a Paula!

- Ok, doutor, mais algum conselho?

- Marque a próxima sessão pra quinta feira, sim?

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Quintanar

O meu lugar em Porto Alegre, poderia ser a Tristeza, onde a minha avó morava, se ela estivesse aqui ainda, com certeza diria que esse é o meu lugar preferido em Porto Alegre, mas hoje, fazendo jus ao nome, visitar aquele bairro da zona Sul só me traz tristeza sem a presença dela.
Desde de 2009, meu lugar preferido automaticamente foi transferido para a Casa de Cultura Mario Quintana. Por vários motivos especiais.

A primeira vez que fui pra Porto Alegre (sem ser pra ir à casa da minha avó) visitei a CCMQ com o maior homem que tenho conhecimento até hoje: meu pai.

A primeira vez que ouvi uma canção de The Beatles foi na Casa de Cultura, "hello, goodbye" foi a primeira canção que a orquesta (que prestava homenagem aos The Beatles no dia) tocou e com certeza a música mais nostálgica pra mim.

A primeira vez que tomei café na Casa de Cultura foi com o maior guri que tenho conhecimento até hoje: meu amor.

Obrigada, Mario, por ser a minha fonte de inspiração quando abandono a prosa e atrevo-me a escrever poesia.

20 anos sem ti?
20 anos senti!

domingo, 6 de abril de 2014

Nós em cada lugar

Não lembro nitidamente que dia te conheci, lembro que estava muito escuro para um museu.
Ah, lembrei!
Estava mais escuro pois era de noite, e como tinha poucas pessoas eles diminuíram as luzes.
Juro que tento puxar com a maior força que meu corpo dispõe, mas não consigo lembrar que quadro eu "olhava". Entre as mais cínicas aspas. Eu olhava era mesmo para o tresloucado que falava sozinho perante ao quadro. Depois percebi que ele falava era com o quadro. Três ou quatro passos eram o que nos separava. Ele estacou. Fez-se um silêncio. Percebi que agora quem olhava era ele. E não mais para o quadro, mas para mim.

Ele abriu a boca na falha tentativa de balbuciar alguma coisa. Mas não conseguiu emitir nenhum som.

Nesse instante eu disse olhando fixamente pr'queles olhos cor de mel:

"Você não sabe, mas eu estava exatamente aqui, olhando pra você..."

 Ele se aproximou e pode parecer o auge do clichê cinematográfico: mas sim, deu choque.

 Essa é a coisa que talvez eu mais lembre com nitidez: que no primeiro toque deu choque.

Depois disso, tudo é um embaraço nebuloso na minha cabeça, não lembro quem começou a puxar assunto, ou quem riu tão alto que alguém teve que fazer "shhhh". E eis a última vez coisa que eu lembro que eu tenha dito:

"Vamos embora?"

"Vamos, mas o que a gente vai fazer?"

"Não sei, a gente pode tomar alguma coisa"

"Não, eu tô falando o que que a gente vai deixar aqui"

"Ãhn?"

"Meu pai me ensinou que a gente têm de deixar um pouco da gente em cada lugar"


E nos beijamos num rápido instante só para o segurança não nos encher o saco de novo. E até hoje, a gente deixa algo nos lugares que a gente passa.

sábado, 22 de março de 2014

Isabela

Há três anos sou arquiteta, mas ainda não construí nada.
Nem um apartamento, nem um edifício, nem uma casinha pra cachorro, nem um varanda. Nada.
Por que minha vida está assim? Talvez porque devo ter sido punida no Jogo da Vida, retrocedendo cinco casas.
Moro num apartamento duplex novo ou antigo, nunca irei saber.
Rua Santa Fé. 1187. Sétimo andar. F. De framboesa.
Meu lugar preferido é onde fica minha construção preferida, feita com meus materiais preferidos: vidro, aço, concreto.
É uma das poucas projetadas (até então) sobre a base de um módulo em forma de triângulo equilátero.
Foi inspirada, por coincidência ou não, no meu planeta preferido: Saturno.
Entro, sento, fecho os olhos e penso com toda a força do mundo: leva-me.
De preferência, para meu planeta.

sábado, 15 de março de 2014

Rodrigo

Cinquenta e poucos metros quadrados. A minha quitinete.
Rua Santa Fé. 1107. Terceiro andar. I.
Tiro fotografias de tudo, mesmo quando insistem em dizer que a beleza não está ali.
Observo no que está e não está.
Me locomovo somente de bicicleta.
Levo somente uma mochila com tudo o que julgo necessário: uma câmera Leica D-Lux 2, um Rivotril, um Amoxicilina 500, um Ibuprofeno, um óculos de sol, uma capa de chuva, um Victorinox de 12 funções, uma lanterna, pilhas, camisinha (quatro unidades), 300 pesos em trocados, um iPod 80Gb, dois filmes de Campanella, uma caderneta e uma lista de noções de primeiros socorros.
A mochila pesa 5,6 kg, 6% do meu peso.